A causa de morte por fatores externos tiveram seu crescimento no Brasil a partir da década de 80, quando elas passaram a ocupar a segunda posição dentre os óbitos. “No Brasil, o acidente de trânsito é apontado como a segunda causa de morte de jovens, sendo a primeira na região sul” (FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE, 2000). Não são os jovens os únicos gravemente feridos ou mortos nos acidentes, eles geralmente envolvem outras pessoas, familiares e amigos, que tem suas vidas marcadas por um prejuízo muitas vezes irreversível (PANICHI & WAGNER, 2006). No mundo inteiro, as análises dos fatores externos são feitas utilizando dados de mortalidade, pois eles são facilmente obtidos de forma sistematizada, além de apresentarem melhor qualidade da informação. Já a análise da morbidade por estas causas vem exigindo criações de grandes bancos de dados desenhados especificamente para essa finalidade (MELLO JORGE & KOIZUMI, 2004).

O banco de dados “Major Trauma Outcome Study – MTOS” dos Estados Unidos é reconhecido como o de maior impacto na análise da morbidade hospitalar por trauma. Os seus estudos são fundamentais para a avaliação da gravidade e das intervenções em trauma (CHAMPION, 1999) apud Mello Jorge (2004).

No Brasil, não há banco de dados similares, porém, os dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) têm possibilitado importantes análises quanto à morbidade hospitalar. Vale enfatizar que a partir de 1997, os registros hospitalares relacionados com lesões e envenenamentos (CID-10) tiveram o acréscimo do tipo de causa externa como diagnóstico secundário (OLIVEIRA, 2006).  De acordo com Tomimatsu et al (2008,p.3)

 É obrigatório, desde Janeiro de 2008, atribuir código do capítulo XX(Causas Externas de Morbidade e Mortalidade) da Classificação Internacional de Doenças (CID) 10ª Revisão ao campo “ diagnóstico secundário ” da AIH nos casos de internação pelo SUS por causas acidentais ou violentas. Dessa forma além de proporcionar conhecimento sobre as consequências do acidente ou violência (fraturas, queimaduras, ferimentos entre outros) que teriam sua codificação no campo “diagnóstico principal” (Capítulo XIX da CID-10), o sistema também possibilitaria conhecer por meio do” diagnóstico secundário”, as” causas” dessas lesões(por exemplo atropelamento, acidente de moto, agressão, tentativa de suicídio). Assim o sistema contribui para as análises da situação e das tendências dessas internações e, consequentemente, para subsidiar as intervenções preventivas necessárias.

 O Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS) é o maior sistema de informação nacional, registrando cerca de 11,5 milhões de internações/ano (BRASIL, 2008). Seu objetivo principal é a remuneração de internações ocorridas nos hospitais públicos e privados, conveniados com o SUS. A autorização de Internação Hospitalar (AIH) é o documento que compõe cada registro de sua base de dados (TOMIMATSU et al, 2008).

O SIH/SUS foi concebido para operar o sistema de mapeamento de internações dos hospitais contratados e tem apresentado melhoras gradativas ao longo de sua existência. Sua abrangência limita-se às internações no âmbito do SUS, excluindo as que são custeadas diretamente ou cobertas por planos de Saúde (MELLO JORGE & KOIZUMI, 2004). De acordo com Risi jr. (2002), esse sistema reúne informações sobre cerca de 70% das internações hospitalares do país, entretanto, apesar da limitação quantitativa e de haver problemas quanto à qualidade das informações, alguns autores como Lecovitz & Pereira (1993), Lebrão, Mello Jorge & Laurenti (1997) referem-se que as estatísticas hospitalares permitem um quadro quase completo da mortalidade mais grave da população, qual seja a que leva à hospitalização.

Um estudo realizado por Koizumi, Lebrão & Mello Jorge (2000) com o objetivo de verificar a morbimortalidade por traumatismo cranioencefálico no município de São Paulo, mostraram que as pesquisas anteriores utilizando os dados do SIH/SUS e enfocando o traumatismo craniano, demonstraram que o perfil dos pacientes que são internados por essa causa é diferente daquele verificado na mortalidade por causas externas, e que a morbimortalidade precisa ser considerada nesses dois conjuntos, tanto na assistência em trauma como também nos programas que visam a prevenção.

Utilizando o SIH/SUS como fonte de dados, observa-se que nas internações hospitalares, as quedas predominaram atingindo quase metade de todas as internações por causas externas, os acidentes de transporte aparecem em segundo lugar com proporções próximas a 20%, e as agressões atingem cerca de 6% (MELLO JORGE & KOIZUMI, 2004).

O Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) permite uma análise de dados sobre acidentes e violências (MELIONE & MELLO JORGE, 2008). De acordo com Melione & Mello Jorge (2008), embora esse sistema seja criticado como fonte de informação epidemiológica, por seu caráter de controle de pagamento, ele cobre todo o território nacional e seus dados encontram-se disponíveis para o público em geral, em meio eletrônico, com defasagem de cerca de dois meses. Para Tomimatsu (2008, p.01)

 Apesar das limitações inerentes às características administrativas, e ao fato de não ser universal, pois abrange somente as internações pagas pelo SUS, o SIH/SUS apresenta várias vantagens: tem coleta rotineira em um grande número de unidades hospitalares, é disponibilizado ao público interessado em pouco tempo, abrange aproximadamente 70% das internações brasileiras e conta com informações epidemiológicas importantes, as quais permitem inúmeras análises da situação de morbidade hospitalar e de avaliação de serviços. Além disso, o Sistema vem sendo utilizado para avaliação de outros sistemas de informação, tais como o de nascidos vivos, ou como fonte complementar de dados sobre doenças e agravos para fins de vigilância epidemiológica. Assim contribuiu com subsídios para o planejamento de ações, no apoio à vigilância em saúde e na avaliação das intervenções.

 Apesar da importância da informação sobre os diagnósticos “principais” e “secundários” nas internações para análise de situações de saúde, poucos trabalhos avaliaram a qualidade desses dados no SIH/SUS (Tomimatsu, 2008) De acordo com Tomimatsu (2008, p.3) na

 Revisão de literatura de Bittencourt et al abrangendo o período 1984-2003 identificou apensas três estudos, todos anteriores à primeira portaria do Ministério da Saúde que determinou a inclusão do código da causa externa no campo “ diagnóstico secundário ”. Após a emissão dessa portaria, apenas um trabalho foi detectado na revisão de literatura especializada enfocando a qualidade da informação sobre internações por causas externas no SIH/SUS.

 Utilizando o SIH/SUS como fonte de dados, Marchese e Scatena (2008) apresentaram a caracterização das vítimas de violências e acidentes em serviços e emergência no município de Alta Floresta-MT e identificaram que entre as internações 58,5% foram fraturas, 29% em membros inferiores e o sexo masculino apresentou maior número de internações com diagnóstico de fratura.

Os estudos realizados por Melione e Mello Jorge (2008) com bases no SIH/SUS investigaram a morbidade hospitalar por causas externas no município de São José dos Campos/SP, concluiu-se que a cada três internações pelo SUS decorrentes de acidentes de trânsito no período de 1998 a 2002 uma internação estava relacionada à ocorrência de óbito.

Os pesquisadores que investigam os custos das causas externas e os acidentes e violências utilizando o SIH/SUS adotam metodologias diversas. De acordo com Rodrigues et al (2009)

 Alguns autores analisaram os dados disponíveis sobre as internações hospitalares para esse grupo de causas, tais como Jorge & Koizumi, Feijo & Portela, Mendonça et al e Lunes. Esse tipo de abordagem tem a vantagem de trabalhar com informações bastante detalhadas sobre todas as internações realizadas pelo SUS, que são registradas nas guias de Autorização para Internação Hospitalar (AIH) do SIH. Com bases nesses dados, que disponibilizados pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS), é possível recuperar os procedimentos realizados em cada internação e seus respectivos valores, além do motivo de saída (se alta ou óbito), local de internação, características dos pacientes, sendo todas as informações desagregadas por tipo de causa de acordo com o CID-10.

 Assim, pode-se concluir que os acidentes de trânsito são apontados como grandes responsáveis pelas internações hospitalares no Brasil. Em 2005, foram registradas cerca de 800 mil internações por acidentes de trânsito no SIH/SUS (TOMIMATSU, 2008). Apesar de, em geral, essas causas apresentarem menor tempo de internação, seu custo é superior ao observado nas internações por causas naturais (MINAYO et al 2003), representando impacto significativo para os recursos públicos de saúde.

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