perder

“Os reforços que nos alimentam, também nos matam, isso é fato ”(MADEIRA,2009)

            Um dia desses estava no ônibus a caminho da supervisão clínica, haviam duas mulheres que estava discutindo as frustrações amorosas e as experiência que cada uma delas havia vivenciado, eis que de repente uma delas solta uma frase semelhante a essa:

– Nossa, ele realmente me amava, pena que descobri isso tarde demais, agora ele está com a fulaninha lá, eu era feliz e não sabia  P#@%$ !

            Acredito que 99% da população mundial deve ter se queixado um dia de algo que tinha e que só valorizou a partir do momento que perdeu. Não estou falando somente das decepções amorosas que as pessoas vivem cotidianamente, mas de todos os outros fatos da vida.

            Como um Cientista do Comportamento, me proponho a responder ou criar hipóteses para uma possível explicação (não casuística), para esse fato do cotidiano.

Um dos princípios elementares da Análise do Comportamento ou do Behaviorismo Radical e que me fez refletir de imediato ao ouvir a frase no ônibus foi na seleção por consequências de Skinner, baseada nos pressupostos de Charles Darwin.

Darwin afirmou que os organismos adaptados ao ambiente são os que teriam maior probabilidade de sobrevivência e de reproduzirem descendentes já adaptados a essas novas características modeladas pelo ambiente ou pela seleção natural.

Pautando-se em Charles Darwin, Skinner postulou que todo comportamento é mantido e modelado pelas consequências que ocorrem após o seu acontecimento. São as consequências que determinam se o comportamento será estabelecido ou não. No modelo Skinneriano as consequências reforçadoras são aquelas capazes de aumentar a probabilidade da ocorrência do comportamento. Um exemplo de reforço é: Eu estar em um restaurante jantando com alguém e pedir que a pessoa que me acompanha que me passe o sal e ela me dar o Sal, nesse caso, a entrega do sal serviu como reforço ao meu pedido, a probabilidade de eu pedir sal quando eu necessitar dele novamente é muito maior, pois as consequências do meu pedido em situações anteriores foram reforçadoras. O Reforço que acrescenta algo ao ambiente é denominado pelos analistas do Comportamento como Reforço Positivo. Enquanto aqueles reforços que tem o poder de eliminar um estímulo aversivo são chamados Reforços Negativos. Um exemplo claro de Reforçamento Negativo é eu estar com uma tremenda dor de cabeça, o som da minha casa está altíssimo, eu ir lá e desligar o som na tentativa de aliviar minha dor de cabeça. Caso a dor de cabeça diminua, o comportamento de desligar o som servirá como reforçamento negativo, pois ele eliminou aquilo que me incomodava. E na presença dessa mesma condição ambiental ou uma condição parecida a essa, a probabilidade de eu tentar eliminar ruídos para aliviar a minha dor de cabeça é muito grande. Assim, o termo positivo refere-se a ACRÉSCIMO enquanto os termos negativos equivalem à RETIRADA. O reforço positivo acrescenta algo ao ambiente enquanto o reforço negativo retira um estímulo aversivo do ambiente.

– Mas que relação há entre darmos valor aquilo que perdemos com os princípios básicos de reforçamento positivo e reforçamento negativo?

Vou responder a essa pergunta formulando outra. A maioria das pessoas detestam perder não é verdade? Se todas as vezes que eu estou com sede eu bebo água, quando a água faltar e você tiver sede o que você faria? O leitor deve estar nesse momento formulando um monte de hipóteses para a solução desse problema, há de concordar comigo que talvez irá a padaria comprar água, pedirá a vizinha, mas fará alguma coisa pra matar a sede. É dessa forma que as coisas acontecem, se todas as vezes que nós emitimos um determinado comportamento e as consequências dele é nos acrescentar algo, ficamos satisfeitos, costumo até dizer que consequências reforçadoras demais geram saciação; porém quando emitimos o mesmo comportamento e as consequências reforçadoras anteriores não nos acontecem “enlouquecemos”, a probabilidade de fazermos qualquer coisa para obter uma conseqüência parecida com a que tínhamos é muito grande. Partindo desses pressupostos podemos responder a pergunta feita no título desse texto: Por que só damos valor quando perdemos? A resposta básica é: pelo fato dos reforçadores que tínhamos antes não acontecerem mais, fazemos de tudo para tê-los novamente e ai percebemos o quanto eles eram importantes, pois a importância só é dada quando não se tem não é verdade? Portanto meu caro leitor, não perca os reforçadores que te façam bem, valorize cada segundo importante da sua vida, cada pessoa que diz que te ama, pois um dia essas consequências prazerosas podem acabar, ai, fazê-las com que elas aparecem novamente pode ser muito trabalhoso, pois as condições ambientais anteriores não serão as mesmas. Portanto, lembrem-se: “Os reforços que nos alimentam, também nos matam, isso é fato ”(MADEIRA,2009)

Anúncios