By Igor Eduardo Madeira

“O amor platônico no sentido mais genérico e popular do termo se refere a um amor à distância, que não se aproxima, não toca, não envolve. Reveste-se de fantasias e de idealização. O objeto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Parece que o amor platônico distancia-se da realidade e, como foge do real, mistura-se com o mundo do sonho e da fantasia.”

Em primeiro lugar, antes de ser criticado por alguns leitores, gostaria de destacar que o que penso a respeito do amor foi descrito em um texto postado nesse blog denominado: “Amor que nada, ações reforçadoras ou recompensadoras”. Em segundo lugar, as idéias apresentadas em parágrafos posteriores se referem à suposições, visto que só temos certeza das coisas ou dos fatos se experimentalmente nós o testarmos, portanto a análise das contingências aqui descritas se baseia em um ensaio comportamental, visto que é só tiramos o comportamento de um determinado contexto que ele perde o seu significado, se colocarmos o mesmo comportamento em um novo contexto ele ganhará uma nova significação.

A definição do que é o amor platônico descrita na citação acima está longe de ser avaliada em uma categoria comportamental é claro, visto que aparecem uma série de “adjetivações comportamentais” ou lacunas, tais como fantasias e idealização. Tais palavras em uma análise funcional deveriam ser melhor investigadas, mas isso é um problema metodológico que não convém descrevermos agora.

Estava ouvindo uma música do Roupa Nova chamada ” Do bem “, que por sinal eu gosto muito, e uma frase me despertou a atenção: ” Do mal de amor se morre pra se achar o amor do bem “. Essa frase poderia ser o refrão da vida de milhões de pessoas espalhadas por todo o mundo.

– Quem é que nunca amou alguém e por este não foi correspondido?

– Quem é que sempre fez tudo para chamar a atenção da pessoa amada?

– Quem é que nunca sentiu um friozinho na barriga ao ver o “ideal platônico” passar ao seu lado ou simplesmente sorrir para você e dizer um Oi?

Essas sensações que sentimos são apenas terminações nervosas do nosso organismo geradas por um determinado estímulo (objeto desejado), que a partir de agora passa a se chamar evento reforçador. Quanto a essas sensações, cabe a fisiologia investigar, se quisermos analisar as causas do platonismo, devemos partir para as causas externas a nós como uma explicação para os comportamentos públicos, privados e encobertos.

É de comum acordo que todas as vezes que sentimos sede ou fome, procuramos alguma coisa para que essas sensações de privação tanto de água, quanto de alimento desapareçam. Quanto maior for a privação, maior o poder do reforçador sobre o nosso comportamento, a probabilidade de que façamos as mesmas coisas(beber ou comer) quando sentirmos fome ou sede é muito grande. É claro que fome e sede são algo inerentes a genética do sujeito. Porém para a grande maioria das pessoas receber demonstrações de amor e afeto já faz parte do seu aparato biológico.

Se tratando de um amor platônico é importante ressaltar que o seu “objeto de desejo” possuí algum estímulo que chama sua atenção, ou seja, algo que seja reforçador para você. Caracterizo como estímulo de forma bem genérica, o fato como a pessoa se comporta, as forma como gesticula, conversa com você, as feições físicas e tantas outras qualidades que você leitor queira enumerar. Porém a ausência desses estímulos reforçadores sobre o seu comportamento leva-o a um estado de privação; e como já dissemos anteriormente, a privação faz com que nos comportemos de diversas maneiras aleatórias para obtermos o reforço, ou seja, a pessoa desejada. Pode-se a partir daí levantarmos uma hipótese de que fazemos tudo para chamarmos a atenção da pessoa que amamos só para obter o que nela nos é agradável, traduzindo: nos comportamos de diversas maneiras para obter o reforçamento positivo provindo do estímulo reforçador que tanto almejamos.

O problema ainda é maior quando interpretamos de forma errônea qualquer comportamento que essa pessoa emita como sendo um sinal de que há possibilidades de interação, ou seja, de reforçamento. Se esses sinais não forem testados, ficaremos sempre na dúvida, perdendo a possibilidade de sermos reforçados, e isso leva a problemas clássicos como interpretações de comportamentos que talvez nunca ocorrerão. O problema da má interpretação ou de uma leitura errônea do ambiente é típico na maioria das vezes em que se “chega em alguém ” e leva o clássico fora. Ai a pessoa não correspondida logo se queixa: Poxa, mas fulano dava indícios de que estava interessado. O problema é colocar os comportamentos emitidos por essa pessoa dentro de contextos que não correspondem a história pessoal dela e sim a sua história ontogenética, ai o que acontece? O significado acaba sendo outro. Por isso é muito importante discriminarmos a forma como interagimos com as pessoas e como elas respondem aos nossos comportamentos. Parece que estamos em uma cilada. Você me pergunta, então como fazer? Eu respondo: A sua hipótese só será verdadeira se for testada e reforçada, caso contrário as hipóteses levantadas estarão totalmente erradas.

Um outro problema que merece destaque na relação do amor platônico é o controle comportamental por contingências de reforçamento intermitente, essa sim caro leitor é a maior cilada de todas, pois se comportar na hora certa se torna muito difícil. Para ilustramos tal fato, suponhamos que Joãozinho seja apaixonado por Maria. Ele faz de tudo para agradá-la; em determinadas circunstâncias ela emite comportamentos de interação, em outros momentos esses comportamentos interativos não são demonstrados por ela. Esse fato automaticamente aprisiona Joãozinho, pois ele irá agir de diversas formas para que os comportamentos de aprovação de Maria ocorram como sempre aconteceram, nesse sentido, Maria colocou Joãozinho sobre o seu controle, fazendo com que ele se comporte de diversas maneiras para agradá-la, e isso é reforçador para Maria. Então te pergunto: Por que Maria iria corresponder aos caprichos de Joãozinho sendo que ele faz tudo o que ela quer sem que ela necessariamente o corresponda? A resposta é simples, é mais reforçador para Maria, ter Joãozinho sobre o seu controle e se comportando assim, do que perder o controle sobre ele. Nesses casos como não há extinção dos comportamentos reforçadores por parte de Maria, visto que eles ocorrem ora sim e ora não, é provável que Joãozinho se mantenha por longo tempo nessa história de amor platônico, a não ser que ele encontre outra coisa que seja mais reforçador do que Maria, ou encontre outra maneira para testá-la. Portanto, o amor platônico é algo muito complexo, a começar pela sua etiologia, só há duas formas ao meu ver de nos livrarmos dele, ou testamos para saber se realmente há possibilidades de reforçamento, ou encontramos algo ou alguém que seja mais reforçador, caso contrário seremos vítimas do esquema de “aprisionamento” ou de reforçamento intermitente como queira, rs….

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