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By Igor Madeira

O trânsito não pode ser encarado simplesmente como um problema técnico, mas deve ser visto como uma questão social e política, pois está intimamente relacionado com as características de nossa sociedade e com modelo de gestão econômico atual. De acordo com Vasconcelos (1998), para compreendermos o trânsito não basta discutirmos os problemas do dia-a-dia, como congestionamentos e acidentes, faz-se necessário também analisar a forma com ele e as pessoas participam, os seus interesses e necessidades.

No perímetro urbano das cidades são realizadas milhares de viagens por dia com motivos e meios de transporte variados. Os motoristas ao circularem pelas ruas querem andar o mais depressa possível sem interrupções de pedestres, ciclistas e motociclistas. Quando um pedestre se desloca pelas ruas, talvez deseje fazê-lo de forma mais rápida, segura e acessível, contando com uma melhor “fluidez” na sua passagem. Passageiros de ônibus necessitam de um transporte público eficiente, seguro e uma melhor passagem para seu veículo, com um ponto de ônibus próximo ao seu local de interesse. No decorrer de suas viagens, as pessoas no trânsito mudam seus objetivos, ora desejam segurança, acessibilidade, rapidez ou várias coisas ao mesmo tempo (BULLERJHANN, 2006).

Partindo de tais pressupostos, pode-se compreender que o trânsito é caracterizado por pessoas de uma dada sociedade com diferenças políticas, sociais e importâncias diversas, se caracterizando por uma disputa de tempo, espaço físico e acesso aos equipamentos urbanos. De acordo com Vasconcellos (1998) todos fazem parte da circulação geral, cada um com sua condição de deslocamento, seus interesses e necessidades.

Encontrar uma definição exata sobre o trânsito é uma tarefa bastante complexa, visto que cada autor trabalha com pontos de vistas diferentes ao estudá-lo. Segundo Batista (1985), o fenômeno “trânsito” é produzido a partir de comportamentos de indivíduos e de seus efeitos no ambiente, sendo que este ambiente, por suas características físicas, possibilitaria a ocorrência de certos comportamentos impedindo a ocorrência de outros. Rozestraten (1988) afirma que o trânsito é “o conjunto de deslocamentos de pessoas e veículos nas vias públicas, dentro de um sistema convencional de normas, que tem por fim assegurar a integridade de seus participantes “(ROZESTRATEN, 1988, p.4) e prossegue afirmando que:

O sistema funciona através de uma série bastante extensa de normas e construções e é constituído de vários subsistemas, dentre os quais os três principais são: o homem, a via e o veículo. O homem aqui é o subsistema mais complexo e, portanto, tem maior probabilidade de desorganizar o sistema como um todo (ROZESTRATEN, 1988, p.5)

Porém, de acordo com Vasconcellos (1998) o trânsito é o conjunto de todos os deslocamentos diários feitos pelas calçadas e vias da cidade, e que parece nas ruas na forma da movimentação geral dos pedestres e veículos. Segundo Martinelli, Chequer & Bullerjhann (2007 a, b), o trânsito poderia também ser definido como a inter-relação de contingências entrelaçadas em que comportamentos individuais e práticas culturais da produção e uso do ambiente físico e social, estão associados direta e indiretamente à mobilidade humana.

Quando observarmos o trânsito, devemos supor que ele se caracteriza no deslocamento de pessoas e veículos, tais deslocamentos se realizam através de comportamentos. O comportamento para o Behaviorismo Radical é considerado como aquilo “que o organismo faz”, ou seja, refere-se à atividade do organismo em interação com o seu ambiente. Tal interação inclui a atividade dos músculos lisos e estriados. Aquilo que o organismo faz é visto como “voluntário”, quando envolve o uso da musculatura estriada. Por outro outro lado, o comportamento que utiliza a musculatura lisa é considerado como involuntário. Segundo DE ROSE (2001, p.82)

Na linguagem cotidiana, frequentemente nos referimos aos comportamentos que envolvem a musculatura estriada como comportamentos voluntários, enquanto denominamos involuntários aqueles que envolvem a musculatura lisa e as glândulas.

Nesse sentido, o trânsito é um conjunto de comportamentos-deslocamentos num sistema de normas. Segundo Rozestraten (1988, p.9) “Demorou muito até os psicólogos descobrirem que este comportamento pode e deve ser estudado cientificamente, ainda mais porque se revelou um dos comportamentos mais perigosos”.

No Brasil, o interesse pela psicologia do trânsito começou na perspectiva de uma possível seleção de motoristas para empresas, na esperança de poder eliminar candidatos à Carteira Nacional de Habilitação (CNH) que poderiam ser uma ameaça à própria segurança e a dos outros usuários (ROZESTRATEN, 1983). Segundo Hoffmann e Cruz (2003) a Psicologia do Trânsito surgiu como área aplicada com a criação de instituições de seleção e treinamento industrial de trânsito.

A Psicologia do Trânsito pode, portanto, ser definida como uma área da Psicologia que estuda, através de métodos científicos válidos, os comportamentos humanos no trânsito e os fatores e processos externos e internos, conscientes e inconscientes que os provocam ou os alteram (ROZESTRATEN, 1988). Apoiando-se nesse conceito, Hoffman (2005, p.3) em seu estudo sobre o comportamento do condutor no trânsito acrescenta que

A Psicologia do Trânsito pode ser conceituada como o estudo do comportamento do usuário das vias e dos fenômenos/processos psicossociais subjacentes ao comportamento. O conceito é amplo, pois o comportamento do condutor tem sido estudado em relação a uma diversidade de questões, tais como: procura visual, dependência de campo; estilo de percepção; atitudes; percepção de risco; procura de emoções, atribuição, estilo de vida, e carga de trabalho/trabalho penoso; estresse e representação social. Estas questões indicam a pluralidade de abordagens que constituem a fundamentação teórica para a pesquisa em Psicologia do Trânsito.

Rozestraten (1988) relata que a Psicologia do Trânsito investiga o comportamento dos participantes do trânsito indistintamente, não excluindo ninguém. Ela é uma das Psicologias aplicadas mais abrangente e mais extensa, incluindo muito mais categorias de indivíduos do que a Psicologia Escolar, a Psicologia Organizacional e a Psicologia Clínica.

Um dos dados analisados e estudados pela psicologia do trânsito é os relacionados à ocorrência de acidentes, ou seja, o que faz com que os acidentes de trânsito assumam proporções alarmantes na sociedade? Quais fatores estão associados à ocorrência de acidentes? Qual é a freqüência e perfil dos acidentes em uma cidade? De que forma esta informação pode ser útil na definição de políticas públicas e de controle do comportamento no trânsito? (Rozestraten, 1988)

As conseqüências decorrentes de acidentes automobilísticos são bastante conhecidas em nosso meio, entre elas podemos destacar a grande quantidade de vítimas fatais ou não, que na maioria das vezes sofrem seqüelas em virtude do acidente sofrido, a alteração substancial da mobilidade e circulação nas cidades e a sobrecarga nos serviços e gastos públicos em saúde. Estas e outras conseqüências expõem o acidente de trânsito como um problema de saúde pública, e por envolver o comportamento humano, os acidentes de trânsito acabam sendo um dos pontos cruciais de estudo da Psicologia do Trânsito.

Andrade & Mello Jorge (2000) afirmaram que na atualidade, os acidentes de transporte terrestre, em especial os de veículo a motor, representam, em vários locais do mundo, a principal causa de morte não natural. Nesse sentido, o acidente é uma conseqüência durável e desagradável, pautando-se em um erro de comportamento de usuários no trânsito (ROZESTRATEN, 1983).