fritzl

Em maio de 2008 foi descoberto um fato que marcou o mundo inteiro: Josef Fritzl, um pai de origem Áustriaca é acusado de abuso e incesto por manter a filha Elisabeth Fritzl presa no porão de sua casa por 24 anos e ter 7 filhos com ela, sendo que três deles foram adotados por ele e por sua legítima eposa[1], três deles ficaram presos no porão e o outro foi incinerado por morrer logo após o nascimento. A farça foi descoberta pelas autoridades quando uma das filhas presa no porão entrou em coma e teve que ser levada às pressas para o hospital.

Sob essa perspectiva, queremos discursar a respeito da constituição da Personalidade dos sujeitos envolvidos, pois alguns deles nem sequer tiveram contato com o ambiente externo, além de presenciarem diariamente os abusos sofridos pela mãe no porão. Assim, esse trabalho se norteia na perspectiva de sujeito proposta pela Análise do Comportamento de Skinner, enfocando os contextos sociais, culturais e éticos debatidos na Ementa de Ética Profissional.

No Século atual, temos presenciado uma vasta mudança nos padrões culturais dos sujeitos, algumas destas mudanças é causada pelo advento do capitalismo, que mudou de forma significativa a idealização de homem, pois este passou a ser visto pela sociedade pelo que possui e não pelo que é. Esse efeito capitalista, tornou o homem muito mais individualista e dono de si, afastando-o cada vez mais dos ideais coletivos e de comunidade, princípios que podem ser comparados com o socialismo de Marx e de Durkheim.

Porém, o avanço do capitalismo e da tecnologia abalou também outro princípio fundamental na constituição do sujeito: A estrutura familiar. O modelo familiar que temos hoje se diferencia bastante dos modelos estabelecidos no princípio do séc XVIII, houve uma mudança tanto no modelo estrututal quanto no modelo funcional da família.

A família do século XVIII até meados do século XX era composta pelo pai, mãe e filhos, cada um exercia um papel fundamental no ambiente familiar, este modelo é considerado pelos sociólogos e assistentes sociais como o “modelo nuclear”. Porém essa perspectiva de família mudou de forma significativa. Nesse sentido, temos uma família heterogênea bem como uma mudança conceitual. Assim, as família não são consideradas ligadas simplesmente por laços sanguíneos, mas também à laços de afetividade,ou seja, o núcleo familiar é composto por aquele que cuida e prepara o sujeito para situações do ambiente externo. Sob essa perspectiva uma das funcionalidades da família é preparar o sujeito para que ele ganhe repertórios para lidar com o ” caos social”.

É pensando nesse “caos social” que podemos evocar aqui, a Circularidade Dialética do ETHOS como uma das formas de explicar a constituição do sujeito. Para a Circularidade Dialética o sujeito desde o momento em que foi concebido é inserido dentro dos padrões de costumes da sociedade, tais costumes são implantados no sujeito como se fosse algo dele, perpassando assim a comunidade local, assumindo uma forma que não pode ser encarada como individual, mas uma produção coletiva. Sendo assim, FIGUEIREDO(1995) propõe que ” o homem é arremessado num mundo, que ele não escolheu, e aí ele é como a abertura ao que deste mundo lhe vem ao encontro, ou seja, ele existe no sentido preciso de ser fora de si mesmo, de “ser o seu fora”, vale dizer, de ser-no-mundo. ” Desta forma, o sujeito entrará em contato num primeiro momento com a Práxis( Prática + Teoria), onde através do processo de imitação fará uma elaboração de suas práticas culturais iniciais.

Logo em seguida, esse sujeito em processo de construção será revestido pelo que chamamos de ” HABITAT” que se caracteriza pela morada física, uma parte do mundo onde o sujeito pode-se sentir relativamente abrigado. Com o passar do tempo esse sujeito vai se tornando adulto e adquirindo o que chamamos de “HÉXIS”, ou seja, começa a pensar racionalmente, questionando os valores que lhe foi imposto pela sociedade desde o nascimento. É ai que aparece uma nova ” PRÁXIS” com o intuito de tornar o sujeito único, questionador, possuidor da razão. Tal perspectiva dialética evidencia no sujeito uma grande tensão, visto que este nunca está acabado, mas vive em um intenso diálogo com os padrões culturais, tendo a liberdade de voltar ao ponto inicial onde se situou, bem como avançá-lo. É importante salientar que este princípio envolve uma grande responsabilidade por parte do sujeito, pois este tem que chegar a um consenso que seja útil para ele e para o outro, formando-se assim um duelo intenso entre a intimidade versus a intersubjetividade.

Diferenciando-se um pouco desta perspectiva formadora do sujeito, encontramos a Psicologia comportamental como uma vertente dos aspectos psicológicos, buscando encontrar no ambiente externo a explicação para as “mazelas humanas”.

Para o Behaviorismo Radical, o sujeito é composto de três aspectos fundamentais: O filogenético, ontogenético e cutural. O primeiro deles está intimamante ligado aos fatores genéticos e a evolução da espécie, podendo ser um atributo causador de diversos fatores de comportamento se submetidos a determinados estímulos. O segundo é devido a experiência individual de cada um no ambiente que está inserido, sendo atribuído a Tríplice contingência( Estimulo – Resposta e Consequência) a principal responsável por todos os padrões de comportamento existentes no homem, devido aos reforçadores que aumentam a probabilidade de sua ocorrência e a puniçao que a diminui. Assim, é a consequência de um ato que determinará a manutenção dos padrões de comportamento humano. E por fim, temos os padroes culturais, que norteiam a forma como os sujeitos irão lidar com as situações vivenciadas no dia a dia. As práticas culturais encontram subterfúgios nas macrocontingências[2], são comparadas por Skinner aos padrões morais e éticos de uma sociedade.

Nessa pequena introdução às perspectivas Familiares, Dialéticas e Comportamentais, podemos encontrar respaldos teóricos para analisarmos o que poderia ter acontecido com a constituição da Personalidade dos sujeitos envolvidos no caso noticíado pela revista veja sob uma óptica que busca o respaldo na ética individual e coletiva.

Quanto ao contexto famíliar, podemos compreender que embora não seja uma família nos moldes “nucleares”, pois é fruto de uma relação incestuosa, que se levando em consideração as práticas culturais da sociedade contemporânea é uma prática ilegal e rigorosamente punida pelos órgãos institucionais, há de se convir que mesmo diante de tal fato, a relação entre eles não deixou de ser em momento algum um vínculo “familiar”, visto que há laços afetivos que unem os sujeitos. O que deve ser questionado até então, são as condições oferecidas para que essa família supra as suas necessidades básicas, bem como o alicerce dado aos seus integrantes para que estes sobrevivam ao cãos social. Mas como falar em sobrevivência ao “caos” se não houve contato algum por parte dos membros da família a não ser de Josef Fritzl ao ambiente externo?

É nesse ponto que culmina todo o problema da constituição dos sujeitos, visto que se analisando sobre a perspectiva da Circularidade Dialética não houve em momento algum um diálogo individual e nem intersubjetivo, pois os indivíduos reféns de toda essa situação não tinham sequer o ambiente externo para poder dialogar com os Costumes, as Práxis, e o Habitat. Podemos considerar esses indivíduos semelhantemente ao personagem do mito da caverna de Platão, onde o único mundo existente em que ele acreditava era o que ele pertencia. Nesse aspecto, uma outra questão é levantada: Será possível realizar a circularidade dialética sem contato com o ambiente externo? Onde encontrar referência para os questionamentos provindos da razão do sujeito? A única coisa que podemos supor até o momento é que os filhos provindos de uma relação incestuosa tiveram como único ambiente o porão em que eles viviam, portanto pode se levantar a hipótese de que as práticas exercidas naquele porão eram algo extremamente normal para aqueles sujeitos, vistos que eles não tinham nenhuma outra realidade social para estabelecer comparações e criar repertórios para desenvolver uma crítica apurada a respeito das coisas.

Na perspectiva analítico comportamental, podemos ver que o repertório do sujeito foi bastante comprometido psicológicamente, apesar de serem dotados de características filogenéticas e ontogenéticas, faltavam-lhes o repertório macrocontingencial provindo da cultura e da sociedade. Porém, para alguns sociólogos, cultura não é somente uma produção comportamental produzida a partir de um grande grupo, mas qualquer comportamento restrito a um determinado ambiente. Levando – se em consideração esse conceito de cultura restrita a pequenos grupos, uma outra questão é levantada: Será que o psiquísmo desses sujeitos, partindo desse viés filogenético, ontogenético e cultural são considerados adequados para a nossa espécie? Que tipo de indivíduos foram produzidos dentro dessa cultura? . A resposta as seguintes considerações só pode ser respondida a partir de uma análise bem detalhada e pautada sobre o discurso ético, onde se valoriza o sujeito pela subjetividade individual que ele produz.

A partir do momento que soubermos lidar com as diferenças dos sujeitos e compreendermos que cada um tem uma forma de se construir e lidar com o próprio problema, poderemos chegar a resposta final dessas questões, visto que o ser humano está em intenso diálogo consigo e com os outros. Não sabemos por certo que normas e padrões éticos foram criados dentro do porão, que limites ou que diálogos foram realizados pelos sujeitos que ali estavam, mas uma coisa poderia ser questionada a respeito disso tudo: É Ético privar o sujeito da sua liberdade de dialogar com o habitat em que ele vive? Será correto aprisionar um sujeito pensando no simples prazer? Que tipo de ética se estabelece por tais princípios? Seria a ” Ética do Porão” uma ética correta? Se pensarmos nos nossos padrões culturais a resposta óbvia seria o “nào”, mas se deixarmos o etnocentrismo de lado, quem sabe uma possível resposta seria dada. Portanto, é de se pensar a que conceito ético estamos lidando, visto que aparentemente estamos livres para diálogar com o mundo, mas podemos estar aprisionados na “Ética do Porão” dos nossos desejos , a que diria Freud, reprimidos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FIGUEIREDO, L.C.M. (1995) Ética, saúde e práticas alternativas. In FIGUEIREDO, L.C.M. (1995) Revisitando as psicologias: da epistemologia à ética nas práticas e discursos psicológicos. São Paulo: EDUC.
SKINNER, B.F. Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix, 1974.


[1] A pessoa referida, Segundo informações da revista veja( Edição 2059, ano 41 – número 18; 7 maio de 20008) não possuia conhecimento algum do fato ocorrido.

[2] (condição atrelada a cultura para controlar o comportamento do indivíduo)

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